“Mas o mundo e as pessoas que nele habitam não são a mesma coisa”.
Arendt, Hannah (Homens em tempos sombrios, 2008).
Por Leonardo Marino, publicado originalmente no site Justificando em 2017.
Willian foi fruto da violência. Sua mãe foi violentada aos 13 anos e engravidou de seu algoz. Contudo, como poderia acontecer, sua mãe não realizou um aborto ou rejeitou o filho fruto da violência. Pelo contrário, procurou de todas as formas construir as condições necessárias para a sua sobrevivência eo amou de maneira incondicional. No entanto, a cruel realidade das regiões mais empobrecidas do Brasil, obrigou sua mãe a fazer uma dura escolha, acompanhar a criação de seu filho ou garantir o sustento de sua alimentação. A escolha, quase que natural, foi pela segunda opção e Willian, assim como, outras crianças de sua comunidade, foi educado pelas ruas, nas valas de esgoto, nos campos de terra batida e nas intensas relações de convívio inerentes aos habitantes das Favelas.
Sua presença no universo escolar foi curta, não passou dos primeiros anos do Ensino Fundamental, engrossando a massa de brasileiros considerados como analfabetos funcionais. Willian foi seguidamente expulso dos estabelecimentos de ensino. Para os professores, Willian só acarretava trabalho, seu comportamento não se adequava ao ambiente escolar e suas brincadeiras excessivas eram consideradas como um empecilho para o desenvolvimento dos demais alunos. Se fosse uma criança oriunda das camadas mais abastadas da sociedade, seria considerado como uma criança hiperativa e teria um acompanhamento psicopedagógico ao longo de sua vida de estudante. Porém, como originava-se dos estratos mais empobrecidos da sociedade, sua ‘agitação’ provocou seu distanciamento dos bancos escolares.
Com 15 anos, Willian passou a atuar como olheiro do tráfico. Sua carreira no crime tinha início, mas, de forma semelhante à sua vida escolar, era não foi bem-sucedida. Em pouco tempo, Willian foi preso e enviado para uma instituição socioeducativa. Tal fato ocorreria diversas vezes ao longo dos próximos três anos e seria um prenúncio de uma vida marcada pela apartação prisional.
A maioridade, comemorada com festas e presentes por diversos jovens, para Willian representou sua entrada no sistema penitenciário brasileiro
Com pouco mais de 18 anos, Willian foi preso em um latrocínio que culminou com a morte de 3 pessoas, entre suas vítimas estava uma criança de 3 anos e sua mãe. Willian foi duramente julgado e o clamor da opinião pública acarretou a uma severa condenação. Porém, sua entrada no sistema penal ocorreu com naturalidade, uma vez que a vida nos presídios não se distanciava muito da realidade que ele foi acostumado a tolerar ao longo de sua vida. O odor nauseante dos presídios, marcado por uma mistura de fezes, urina, esgoto, suor e comida azeda não lhe era anormal, na verdade, representava uma triste similaridade com diversos aspectos de sua vida, o que de certa forma garantia a sua parcimônia.
No último mês de janeiro, a brutalidade da vida de Willian e seu rosto foram mundialmente conhecidos. Ele foi um dos presos filmados em seus derradeiros minutos de vida. Willian foi decapitado e teve seu corpo incinerado nas rebeliões que eclodiram nos presídios brasileiros. Willian foi abortado, tardiamente abortado, o sistema prisional produziu o ato que sua mãe não realizou. Em seus últimos instantes de vida, Willian materializou com seu corpo a dura realidade vivenciada nas periferias brasileiras, regiões em que atos similares ocorrem de forma corriqueira, sem que se desperte atenção.
A história contada até aqui é um híbrido entre ficção e realidade. Willian não existe, porém, sua história guarda semelhanças com a de inúmeros jovens brasileiros; são milhares de Willians espalhados por esquinas, becos e ruelas das grandes cidades. Os atos de barbárie vivenciados nos primeiros dias de 2017, assustaram a opinião pública, pois colocaram luz sobre uma realidade obscurantizada e contribuíram para revelar o tempo sombrio em que vivemos; um tempo marcado pelos extremos de violência e por uma visão estreita da realidade.
O reducionismo presente na maior parte das análises sobre crimes e criminosos nos leva a desprezamos as motivações, as formas como os Willians constroem seus códigos de conduta, seus valores, as maneiras como eles se movem no mundo e de que forma eles sobrevivem a uma realidade bestial. Em uma cultura individualista como a nossa, consideramos o crime como uma opção, uma opção de indivíduos que não procuram os meios legais para a sua sobrevivência, ou como uma patologia, uma perversidade congênita de indivíduos que nasceram para fazer o mal. Para nossa infelicidade, o reducionismo analítico nos coloca em um círculo vicioso, em um processo continuo de produção de Willians e de transformação destes indivíduos em objetos que devem ser tratados ‘inumanamente’, que merecem um destino brutal pelos atos cometidos. O reducionismo nos leva a confundir justiça com vingança e a normalizar a barbárie.
Em momentos como o que vivemos, marcado por episódios de extrema violência, com dezenas de pessoas decapitadas, esquartejadas e incineradas, questionamos o sentido de humanidade dos indivíduos que cometem tais crimes; questionamos se existe, concretamente, a possibilidade de ressocialização de indivíduos capazes de realizarem atos com tamanha crueldade e violência, transformamos os indivíduos em monstros. Nestes momentos, reduzimos a nossa visão e focamos apenas no Diabo, mas, esquecemos do Inferno. Em outras palavras, atribuímos aos indivíduos a total responsabilidade pelo ato e esquecemos os processos precedentes. Arrogamos toda a responsabilidade aos indivíduos, mas não olhamos suas trajetórias de vida, os processos formativos que antecedem ao ato de violência derradeira.
A redução da violência ao ato violento, obscurece as múltiplas facetas do mundo e não contribui para entendermos as origens da brutalidade. Não devemos isentar os indivíduos de suas responsabilidades, não devemos absolver incondicionalmente as pessoas que realizam atos bárbaros, porém, é fundamental que investiguemos suas origens, suas trajetórias; é necessário entendermos o papel que a sociedade e o Estado desempenham na construção desses indivíduos e na concreção de uma conjuntura cada vez mais violenta. Não podemos reduzir a criminalidade a uma escolha discricionária entre o certo e o errado, não podemos imputar unicamente aos indivíduos a responsabilidade pelos crimes.
Como nos alertou Nicos Poulantzas (2000), em sua obra ‘O Estado, o poder e o socialismo’, os problemas reais são bem graves e complexos para serem resolvidos por generalizações ultra simplificadoras e grandiloquentes, que jamais conseguiram explicar o que quer que seja.
Referências
MARINO, L. F. O GOVERNO DOS INDESEJADOS: A MORTE E O CÁRCERE COMO DINÂMICAS DE CONTROLE SOCIAL E DE ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO. Boletim de Conjuntura (BOCA), Boa Vista, v. 12, n. 36, p. 109–124, 2022. Disponível em: https://revista.ioles.com.br/boca/index.php/revista/article/view/767.
MARINO, Leonardo Freire. «Geografia e poder: o ordenamento territorial da cidade do Rio de Janeiro e a genealogia da violência policial no Brasil». Biblio 3w: revista bibliográfica de geografía y ciencias sociales, 2017. Disponível em: https://raco.cat/index.php/Biblio3w/article/view/329019.
MARINO, Leonardo Freire. O Estado Territorial e a lógica da exceção permanente: uma análise sobre as manifestações contemporâneas da violência. Niterói: Programa de PósGraduação em Geografia – UFF, Tese de Doutorado, 2010. 228 p.
MARINO, Leonardo Freire. As Forças Policiais e o Ordenamento Territorial da Cidade do Rio de Janeiro. Niterói: Programa de Pós-Graduação em Geografia – UFF, Dissertação de Mestrado, 2004. 201 p.
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Leonardo Freire Marino é Doutor em Geografia pela UFF e Professor Associado da UERJ, onde integra o Grupo de Pesquisa Geografia História e Política desenvolvendo estudos e pesquisas sobre violência e Educação.